Sobre Norbert Elias

(Texto escrito por Stephen Mennell)

Somente no final de sua longa vida Norbert Elias (1897-1990) alcançou celebridade intelectual, e desde sua morte ele tem sido reconhecido como um dos maiores sociólogos do século XX. Sua fama é decorrente de sua teoria dos processos civilizadores, no entanto, sua visão ambiciosa para o escopo das Ciências Sociais se estendeu por todo o desenvolvimento da sociedade humana desde sua origem, incluindo o crescimento do conhecimento e da ciência em longa duração.

Seus escritos abordam temas diversos como violência, esporte, envelhecimento e morte, tempo, trabalho, arte, poesia, utopias e relações entre os sexos. Elias comparou redes de seres humanos independentes – “figurações”, como ele chamava – a uma dança: em constante movimento e ainda assim estruturada. Sua abordagem ficou conhecida como “sociologia figuracional” ou mais genericamente – porque sua abrangência é muito mais ampla do que apenas os sociólogos profissionais – estudos figuracionais .


Um esboço biográfico

 “É como se Norbert Elias tivesse sempre sido um homem velho”, observou um jornal holandês em 1984.

Elias, um sociólogo alemão refugiado de Hitler e que viveu quase quarenta anos na Inglaterra, teve que esperar muito tempo para ser reconhecido. Quando isso aconteceu, foi em sua terra natal e particularmente na Holanda – não no país de cidadania adotado – que se tornou uma celebridade intelectual. Isso ocorreu no final da década de 1970 e Elias já estava perto de seus 80 anos. Em uma notável e vigorosa idade avançada, Elias foi finalmente considerado por muitos cientistas sociais como tendo – nas palavras de Bryan Wilson – “uma das mentes sociológicas mais originais e penetrantes do mundo”. Seus escritos, além disso, tratam sobre assuntos que preocupam e fascinam as pessoas muito além do mundo das Ciências Sociais. O que tanto atrasou o impacto de Elias foi a interrupção de sua carreira no início da ascensão nacional-socialista ao poder, em 1933. Elias, como judeu, se exilou primeiro em Paris e depois em Londres.

Elias nasceu em Breslau (onde hoje se localiza a cidade polonesa de Wrocław) no dia 22 de junho de 1987, sendo filho único de Hermann Elias – empresário do comércio de tecidos – e Sophie Elias. No distinto ginásio de Johannes, em Breslau, ele recebeu uma educação de primeira classe em ciências, matemática, filosofia, línguas e literatura. Ao deixar a escola, em 1916, ele serviu nas forças alemãs, principalmente no Fronte Ocidental, durante a Primeira Guerra Mundial. Após o conflito, ele se matriculou na Universidade de Breslau, tanto em Filosofia quando em Medicina – completando a parte pré-clínica do treinamento médico antes de se concentrar em Filosofia para seu doutorado.

Elias escreveu sua tese (Idee und Individuum: Ein Beitrag zur Philosophie der Geschichte [“Ideia e indivíduo, uma contribuição para a filosofia da história”]) em Braslau, sob a orientação do filósofo neokantiano Richard Hönigswald (1875–1947). O título foi concedido em 1924, somente após um grande desentendimento entre Elias e Hönigswald acerca dos principais postulados de toda a tradição kantiana. A objeção de Elias dizia respeito à afirmação de Kant de que certas categorias de pensamento – espaço newtoniano, tempo, causalidade e alguns princípios morais fundamentais – não são derivadas da experiência, mas são inerentes, eternas e universais na mente humana. A rejeição de Elias a essa suposição foi fundamental para todo o seu trabalho subsequente. Seu efeito imediato foi leva-lo da disciplina da Filosofia para a sociologia, particularmente a sociologia de orientação histórica dominante em Heidelberg, para onde Elias mudou-se em 1925 para continuar seus estudos.

Em Heidelberg, Elias foi aceito como candidato à Habilitação por Alfred Weber (1868-1958), irmão mais novo de Max Weber. Ele se tornou um bom amigo de Karl Mannheim (19893-1947), apenas quatro anos mais velho que Elias e já era Privatdozent*. Quando Mannheim recebeu uma oferta para ocupar uma cadeira de Sociologia em Frankfurt, em 1929, Elias foi com ele para atuar como seu assistente. O departamento de Sociologia estava alojado em porões alugados no rico Institut für Sozialforschung, a posteriormente famosa Escola de Frankfurt, dirigida por Max Horkheimer. Quando os nacional-socialistas chegaram ao poder no início de 1933, Elias mal havia colocado o pé no primeiro degrau da carreira acadêmica alemã. Sua Habilitação foi apressada – a tese era uma versão inicial de Die höfische Gesellschaft [A Sociedade de Corte], que demorou 36 anos para ser publicada.

Depois de passar aproximadamente dois anos em Paris, onde começou a escrever o primeiro volume de Über den Prozess der Zivilisation, mais tarde conhecido em português como O Processo Civilizador, foi para Londres – antes mesmo de dominar o idioma – com poucas perspectivas. Com uma doação de uma organização judaica de refugiados, Elias pode se dedicar à sua pesquisa: trabalhou por três anos até completar os dois volumes do livro, sua grande obra. Foi publicada em Switzerland, em 1939. Permaneceu amplamente desconhecida e não lida entre os públicos de língua alemã e inglesa por trinta anos. Os pais de Elias morreram durante a guerra, sua mãe em Auschwitz – o principal trauma da vida do sociólogo. Elias permaneceu na Inglaterra. Inicialmente como preso político, assim como todos os outros alemães, por ser um “estrangeiro inimigo”. Depois, levou uma existência insegura à margem da vida acadêmica. Após a Segunda Guerra Mundial, (com seu velho amigo Siegmund H. Foulkes) ajudou a lançar as bases para a Psicoterapia Grupo Analítica, agora um dos modos mais influentes de psicoterapia, e a estabelecer a Sociedade Internacional Grupo Analítica (Group Analytic Society International).

Somente em 1954, apenas oito anos antes de atingir a idade para se aposentar, ele obteve um cargo na universidade, em Leicester. Lá, com Ilya Neustadt, ele construiu um grande e bem-sucedido Departamento de Sociologia, onde muitos sociólogos britânicos famosos subsequentes foram colegas de faculdade (como Anthony Giddens e John H. Goldthorpe) ou estudantes. Em 1962-64, após sua aposentadoria formal de Leicester, Elias trabalhou como professor de Sociologia na Universidade de Gana. Durante esse período, ele desenvolveu um grande gosto e uma grande coleção de arte africana. As melhores peças podem ser vistas nas fotografias de seu amigo Gerard Holzmann; outras nas de David Francis, que estão nas Coleções Especiais da Biblioteca da Universidade de Leicester.

Durante esses anos, Elias publicou pouco, mas continuou a escrever, pesquisar e pensar. Com grande determinação e senso interno de propósito, ele desenvolveu, estendeu e refinou as ideias apresentadas em O Processo Civilizador. Esse grande trabalho foi ambicioso suficiente: estudou como se deu a “civilização” dos costumes e da personalidade na Europa Ocidental, desde o final da Idade Média, mostrando como isso estava relacionado à formação dos Estados e a monopolização do poder dentro deles. Mas Elias sempre a considerou mais do que uma tese única: era também um paradigma para ser desenvolvido como um modelo de sociologia que representa a rejeição radical de muitas das suposições básicas da sociologia convencional de hoje (veja conceitos e princípios).

No entanto, a escala do empreendimento de Elias foi revelada apenas nos anos seguintes à sua aposentadoria. Os Estabelecidos e os Outsiders foram publicados em inglês em 1965. No entanto, o evento decisivo para seu reconhecimento foi a republicação, em 1969 – quando Elias já tinha 70 anos, do texto original em alemão de Über den Prozess der Zivilisation. Elias era mais e mais procurado como professor visitante em universidades alemãs e holandesas (incluindo Konstanz, Bielefeld e Amsterdã), e eventualmente deixou a Inglaterra para morar em Amsterdã. A maioria de seus livros e ensaios posteriores apareceu pela primeira vez em alemão: os livros incluem A Sociedade de Corte, Introdução à Sociologia, A Solidão dos Moribundos, Envolvimento e Alienação (ensaios coletados sobre a sociologia do conhecimento e das ciências), Sobre o Tempo, A Busca da Excitação (em coautoria com Eric Dunning – ensaios coletados, originalmente em inglês, sobre a sociologia do esporte), A Condição Humana e A Sociedade dos Indivíduos (contendo três ensaios que datam de 1939 a 1987).

Uma seleção de seus poemas, intitulada Los der Menschen, foram também publicados em ocasião de seu nonagésimo aniversário, em 1987. O último livro publicado ainda em vida foi Studien über den Deutschen, publicado em português sob o título Os Alemães: a luta pelo poder e a revolução do habitus nos séculos XIX e XX. Este livro é especialmente importante porque desenvolve um tema muitas vezes esquecido em O Processo Civilizador, a fragilidade do processo civilizador e o sempre presente contraponto, o processo de descivilização.

Elias morreu, ainda trabalhando, em Amsterdã, em 1º de agosto de 1990. Quatro outros livros foram publicados postumamente: A Teoria Simbólica, tratando a respeito dos processos de desenvolvimento humano de longa duração que preocuparam Elias, especialmente em seus últimos anos; Norbert Elias por ele mesmo, contendo um ensaio autobiográfico e entrevista; Mozart: Sociologia de um Gênio; e, recentemente, A gênese da profissão naval, publicado em português no livro Escritos & Ensaios I. (Clique em Trabalhos Publicados para uma bibliografia completa dos trabalhos de Elias).


*N.T.: O título de “Privatdozent” não pode ser traduzido, pois é específico do sistema educacional alemão. Para se tornar professor universitário na Alemanha é preciso passar por diferentes estágios, convencer outros acadêmicos das competências para a profissão e ser bem avaliado em exames de diferentes instituições. Inicialmente, você precisa escrever um livro acadêmico, além da tese de doutorado. Esse segundo livro é chamado de “Habilitation” (o livro A Sociedade de Corte foi a Habilitação de Norbert Elias). Após receber a “Habilitação” será possível, futuramente, tornar-se professor universitário. No entanto, antes disso, é preciso inscrever-se para atuar como uma espécie de “professor particular” na universidade. Somente aqueles que são “professores particulares” em uma universidade podem receber professores oriundos de outras instituições de ensino, como foi o caso de Mannheim e Elias. O título de “Privatdozent” está um nível abaixo de professor universitário.