Conceitos e princípios da pesquisa figuracional

O que “Estudos Figuracionais” significam?

Sociologia Figuracional, Sociologia Configuracional ou Sociologia dos Processos são termos relacionados a uma tradição de pesquisa fortemente influenciada pela obra de Norbert Elias (1987-1990), autor do clássico moderno O Processo Civilizador (publicado originalmente em alemão, em 1939) e mais de uma dúzia de livros subsequentes. Suas ideias tem sido retomadas, desenvolvidas e ampliadas em seu escopo por uma extensa rede internacional de estudiosos – formada não apenas por sociólogos, mas também por pesquisadores da história, antropologia, ciência política, psicologia e estudos literários e culturais. Como existe um certo ceticismo entre eles acerca das fronteiras disciplinares convencionais, por essa razão, esse site usa o termo geral “Estudos Figuracionais”.

Alguns princípios e principais temas de pesquisa

As preocupações centrais dos “estudos figuracionais” podem ser sucintamente descritas como as conexões entre poder, comportamento, emoções e conhecimento em uma perspectiva de longa duração (de maior ou menor extensão). Isso normalmente envolve uma ponte sobre a suposta divisão “macro-micro” até uma extensão que permanece incomum nas Ciências Sociais hoje.

Os membros da rede de estudos figuracionais não se veem como uma “escola teórica”, mas como participantes de uma tradição de pesquisa disposta a considerar ideias e opiniões novas ou diferentes das suas e que segue em desenvolvimento.

O próprio Elias sempre negou qualquer desejo de estabelecer um conjunto fixo de doutrinas do tipo, geralmente pautado em alguma postura filosófica, subjacente às “perspectivas” mais teóricas. Ele queria encorajar pessoas a prosseguir, através de novas pesquisas, alguns dos problemas das sociedades humanas, aos quais ele havia chamado a atenção. Nessa modesta ambição de iniciar uma tradição de pesquisa, ele teve algum sucesso tardio. No entanto, existem alguns traços característicos que marcam o trabalho dos membros da rede, independente de qual seja sua área de pesquisa:


(1) Talvez a caraterística mais fundamental seja perspectivação dos problemas de pesquisa em termos processuais.

Não se deve dar muita importância à palavra “figuração” em si, que costumava significar (nas palavras de Van Benthem van den Bergh) “redes de seres humanos interdependentes, com equilíbrios de poder assimétricos e cambiantes”. Problemas intelectuais nunca são resolvidos com a introdução de um único novo conceito.

No centro da crítica de Elias às categorias e conceitualização sociológica está sua noção de “redução de processos”, com a qual se refere à tendência generalizada de reduzir conceitualmente processos a estados. Isso pode ser visto tanto na linguagem cotidiana quanto nos discursos especializados das ciências. “Dizemos: ‘O vento sopra’ como se o vento fosse realmente algo em descanso que num dado momento começa a mover-se e a soprar” (ELIAS, Introdução à Sociologia, 2015, p. 122). Essa tendência é muito difundida nas línguas que Benjamin Lee Whorf chamou de “Padrão Europeu Médio” (do qual a língua portuguesa é tributária), e já estava cristalizada na antiguidade.

Na sociologia, a pressão para a redução do processo é vista em distinções conceituais consideradas como certas entre o “ator” e sua atividade, entre estruturas e processos, entre agência e estrutura, entre objetos e relacionamentos. Acima de tudo, no centro dos problemas do pensamento sociológico, os conceitos de “indivíduo” e de “sociedade” têm uma característica comum: parecem se referir a objetos estáticos e isolados. Isso é uma grande desvantagem ao estudar figurações de pessoas interdependentes.

Pode-se ver que a crítica de Elias à conceitualização sociológica remonta à sua jovem rejeição da filosofia neo-kantiana (ver Sobre Norbert Elias). A visão de Elias não é diferente da de Herbert Blumer, que em um bem conhecido artigo argumentou que os conceitos não deveriam ser definidos como preliminares à pesquisa, mas empregados como “conceitos sensibilizadores” na orientação da investigação. Isso é particularmente relevante para a tarefa – mais típica do trabalho de Elias do que de Blumer – de lidar com evidências históricas na construção de teorias do processo de desenvolvimento social em longa duração. Goudsblom cita a observação de Nietzsche no sentido de que “apenas aquilo que não tem história é definível”. O que é significado pelo conceito de “burguesia” muda muito acentuadamente com o desenvolvimento de um estrato social ao longo de um período de vários séculos; o que significa no século XIX é algo muito diferente do que significava no XI. Ainda assim, os dois significados estão ligados por um longo continuum de mudanças e, usado com cuidado, esses conceitos tem um sentido claro no contexto ao longo do processo de desenvolvimento social. O mesmo vale para outros conceitos como “esporte”, “nobreza” ou “conceito”. Existe, portanto, uma tendência de evitar o uso de tipo ideais, dando mais valor para investigações detalhadas de um único “tipo real” ou estudo de caso (como Elias realizou em A Sociedade de Corte). Um estudo desse tipo não procura definir as características universais do conceito de “corte”, mas certamente não é “vazio de conteúdo” contra a concreta realidade da história e convida a novas investigações comparativas e de desenvolvimento.


(2) A ênfase na primazia do processo foi resumida por Goudsblom (Sociology in the Balance, 1977: 6, 105) em quatro princípios enganosamente simples:

1. que a sociologia é sobre pessoas no plural – seres humanos que são interdependentes entre si de várias maneiras e cujas vidas evoluem e são significativamente moldadas pelas figurações sociais que formam juntos.

2. que essas figurações estão em constante fluxo, passando por mudanças de várias maneiras – algumas rápidas e efêmeras, outras lentas mas talvez mais duradouras.

3. que os desenvolvimentos em longa duração ocorrem em figurações humanas que foram e continuam sendo em grande parte não planejadas e imprevisíveis.

4. que o desenvolvimento do conhecimento humano ocorre no interior das figurações humanas e é um aspecto importante de seu desenvolvimento geral.


(3) Os figuracionistas estão bem cientes das limitações das declarações programáticas em sociologia e uma impressão muito melhor do que se trata os “estudos figuracionais” pode ser extraída de seus próprios trabalhos: a maioria é ao mesmo tempo “teórico-empírico”. Seus escritos abundam nos comentários “teóricos” e “metodológicos”, mas teoria e método são quase sempre desenvolvidos de mãos dadas com investigações de problemas substantivos da sociedade humana.

(Stephen Mennell)